Essa frase é falsa em sua própria formulação e não passa de uma distorção e inversão da intenção do versículo em Chabakuk (2:4): “mas o justo viverá por sua fé”. Conforme explicado na Guemará (Makot 24a), das 613 mitsvot que nos foram dadas, veio Chabakuk e as estabeleceu sobre uma só; isto é, toda a Torá é edificada sobre a fé na retidão do caminho. Porém, uma fé que provém da retidão, ou seja, do desejo de fazer o que é correto, buscando e procurando a verdade. Quando a pessoa reconhece que há um Criador do mundo e se aprofunda nesse conhecimento em todas as suas implicações, ela pode, a partir dessa compreensão, chegar ao conhecimento e à prática de todas as mitsvot. Já aquele que faz o que lhe apetece, em razão de seus desejos, de seus maus hábitos ou de opiniões equivocadas que penetraram em sua mente e a embotaram, certamente não é sobre ele que se disse que viverá por sua fé.
Agora entenderemos que quem diz “cada homem viverá segundo sua fé” está declarando que não existe verdade absoluta; como se, chas veshalom, não houvesse um Criador do mundo que determinou o que se deve fazer, mas que cada um deve seguir os desejos de seu coração e as sensações de seu ventre.
Deve-se acrescentar que parece não ser por acaso que esses descrentes escolheram a palavra “homem”, pois ela remete ao versículo (Devarim 12:8): “cada homem [fará] tudo o que é reto aos seus próprios olhos”, a respeito do qual a Torá nos adverte: “não fareis assim”!
Portanto, se “o justo viverá por sua fé” é o grande fundamento sobre o qual toda a Torá se sustenta, seu oposto é o desenraizamento de toda a Torá. Por isso, é nosso dever extirpar e erradicar essa concepção, apegar-nos à retidão e fundamentar sobre ela a nossa fé — não apenas como conhecimento, mas vivendo de acordo com ela e vivenciando-a a cada instante e em toda situação, como está escrito (Devarim 4:39): “Saberás hoje e colocarás em teu coração que Hashem é D’us nos céus acima e na terra abaixo; não há outro”.
Tudo isso não contradiz o fato de que, no judaísmo, há uma diversidade de abordagens e estilos, tanto os que decorrem de diferenças de opiniões e visões de mundo quanto os que decorrem de diferenças de personalidade e adequação. Nossos Sábios já disseram (Taanit 31a): “No futuro, o Santo, bendito seja Ele, fará uma dança circular para os justos; Ele estará sentado entre eles no Gan Eden, e cada um apontará com o dedo e dirá: ‘Este é Hashem, em Quem esperamos’.” Os comentaristas explicaram que a dança circular é um círculo, no qual em todo ponto a distância até o centro é igual, aludindo a que há, de fato, muitos caminhos no serviço a Hashem, e todos são direcionados ao centro, que é o Santo, bendito seja Ele. É conhecido o ensinamento de nossos Sábios (Bamidbar Rabbah, parashá 13, seção 15) de que há setenta faces na Torá, bem como o conceito (na Guemará Eruvin 13b) de que “estas e aquelas são palavras do D’us vivo”. Contudo, naturalmente, existem os 13 princípios de fé, nos quais todos são obrigados a acreditar. Da mesma forma, a pessoa deve observar todas as 613 mitsvot da Torá, conforme Moshê recebeu no Sinai, conforme nossos Sábios as explicaram ao longo das gerações e conforme foi decidido no Shulchan Aruch. A respeito disso, ninguém pode dizer que segue sua própria fé e não aceita os fundamentos do judaísmo, ou que não tem vontade de cumprir as leis do Shulchan Aruch. Pois a verdade do judaísmo não depende da vontade ou da opinião da maioria; ela é uma verdade absoluta e obrigatória. Todas as demais religiões não passam de uma imitação pobre do judaísmo, e o ateísmo não passa de “rejeição do jugo” sob o pretexto de uma visão de mundo e filosofia.
Que seja a vontade de Hashem que você tenha o mérito de esclarecer e conhecer a verdade, introduzi-la em seu coração e caminhar por ela todos os dias de sua vida.
Com bênçãos,
Rabino Eliyahu Berachá